28 de fev de 2016

Diário de uma lagarta

Eu estava lidando muito bem com os meus dias até que de repente, algo azedou. Minha alegria foi minguando como a Lua, minha paciência foi junto. Quando me interroguei, percebi - isso acontece com muita frequência - o externo me abala mais do que eu gostaria. Assustei em perceber também que, muito do que eu acho que sou, não nasceu em mim. Eu tenho tentado me adequar me comprimindo ao máximo, mas sobra eu no meio emperrando as beiradas. Escorro pelos cantos. Não caibo em nada, nem em mim. Sou um monte de sobras. Vivo entre minhas possibilidades: no lugar onde eu corro atrás das coisas e elas fogem de mim. Cheguei em casa. Junto comigo, um calor pavoroso. Tirei cada peça de roupa como se fosse minha pele, estão todas pelo chão do banheiro. Sento na privada, numa paz infinita, penso - e se os problemas fossem assim, só me despir? Talvez sejam. Agora estou aqui, sentada no sofá fazendo meu planejamento financeiro. Não tenho dinheiro. As angústias pedem para me fazer companhia e os pensamentos servem o café. Ainda sim, estou serena. Como se contasse os segundos para esse momento passar. Porque eu sei que passa, e um dia eu vou lembrar desse momento apenas para que eu nunca me esqueça de onde eu saí.


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Maira Gall